A primeira vez é sempre mais difícil

Por diversas vezes eu me referi ao conjunto de recomendações ergonômicas elaborado pelos pesquisadores franceses Bastien e Scapin, publicado em 1993. Acho fantástico que essas recomendações sejam citadas ainda hoje, tempos em que tudo tem de ser o mais novo, o mais recente e, não raramente, o mais raso.

Parte da permanência das recomendações se deve ao caráter generalista das mesmas. Pelo simples fato de que recomendações e princípios são, mesmo, generalistas. Uma recomendação ergonômica aponta para uma direção geral, como “ser consistente”, ou “falar a linguagem do usuário”. Uma recomendação aponta a direção, mas como chegar lá?

Neste ponto devem ser buscadas guidelines específicas para projetos específicos. E, em se tratando de usabilidade, especificidade é tudo e está no cerne da definição mais clássica do termo: Usabilidade é a extensão pela qual um produto pode ser utilizado por usuários específicos, para atingir objetivos específicos, com efetividade, eficiência e satisfação em um contexto específico de uso.

Contudo, recomendações e princípios gerais são fundamentais como ponto de partida para localizar problemas em uma interface e mesmo para orientar a construção de soluções. Assim, quero destacar mais uma vez o princípio de Orientação (Guidance), que está no topo da lista dos franceses Bastien e Scapin.

Orientação refere-se aos meios disponíveis para guiar, orientar, informar, e conduzir o usuário na interação com alguma interface digital. Oferecer boa orientação é importante, independentemente do nível de experiência que a pessoa possua. Quando falamos de usuários novatos, ou de sistemas novos, ou novas versões de sistemas já conhecidos, torna-se de fundamental importância apresentar as ferramentas disponíveis, os recursos aplicados para ajudar durante o primeiro contato do usuário com uma interface ou um sistema.

Dentre as soluções possíveis está a visita guiada, que apresenta, passo a passo, as novidades ou recursos presentes na interface. Visita guiada é bastante utilizada em websites com conteúdo pago ou restrito, permitindo que a pessoa possa visualizar parte dele e até mesmo experimentar. Apesar do componente didático da visita guiada, deve conter recursos que convidem o usuário a entrar no fluxo de interação.

Em artigo sobre o Facebook, discuti os recursos aplicados para mostrar a nova página de perfil. Vejamos agora alguns outros bons exemplos. As visitas guiadas há alguns anos eram baseadas em navegação página a página, em que cada clique em um botão Avançar ou  Próximo apresentava a tela seguinte. Como muitas pessoas já possuem conexão banda larga, as visitas guiadas são acompanhadas por vídeos, seja antes ou depois.

O site de relacionamento profissional Linked In usou esta estratégia para promover alguns recursos, como ilustram as imagens abaixo.

O vídeo mostra alguns recursos em destaque, com as opções de ver mais ou fechar a janela. Ao clicar no botão Learn more, são apresentadas os itens. Destaco a numeração que dá a real noção da extensão da visita: Tip 1 of 3. Estão presentes as opções de prosseguir e fechar, dando controle ao usuário.

Seguindo a mesma linha, o GMail exibiu um pop up com vídeo esclarecendo sobre o recurso de Priority box.

Apesar de o vídeo ser bastante simpático, a iniciativa não levou a uma experiência tão agradável quanto ao do Facebook ou mesmo a do Linked In. Ao clicar no botão Learn more, o usuário se confronta com uma tela padrão Google contendo links para outras informações.

Hoje deparei-me com um  website que oferece serviço de localizador de notícias. Logo na página inicial está um link para assistir a um vídeo com sobre o serviço, ao invés de uma longa explicação textual.

Obviamente o vídeo é uma animação bem produzida com o intuito de persuadir a pessoa a criar sua conta. Então o tempo todo há o botão Crie sua conta agora.

Criar uma interface persuasiva passa pelo respeito ao usuário e em esforçar-se para que ele tome uma decisão consciente.

3 pensamentos sobre “A primeira vez é sempre mais difícil

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